Família Igreja Doméstica Testemunha da Esperança

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«... Depois, Jesus levou os discípulos até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os». O último gesto do Mestre sobre a terra é de bênção. Como de bênção foi o primeiro gesto de Deus, ao criar o ser humano: «Abençoando-os, Deus disse-lhes: "Crescei e multiplicai-vos, enchei e cuidai da terra…"» (Gn 1,28).

Toda a criação, aliás, é um transbordar da Bênção Primordial: «Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa» (Gn 1,31). A bênção de Jesus sobre os discípulos confirma e continua aquela Bênção que perdura pelos séculos: Fluxo de Luz, de Vida, de Paz e Amor que paira sobre o mundo, que envolve a criação inteira. Que me envolve na totalidade do ser: no que tenho de luminoso e de obscuro. Bênção é a palavra e o gesto definitivo de Deus sobre o mundo! Bênção é Dom, Energia Vital. Mas é também Tarefa: nos primórdios: «Enchei e cuidai da terra»; agora: «Sereis minhas testemunhas». Bênção, Dom e Tarefa — é o que Jesus nos deixa na hora da sua ‘partida’. 

Lucas, no livro dos Actos (primeira leitura), usa uma linguagem simbólica para se referir a essa ‘partida’: «elevou-se ao céu» e «uma nuvem o escondeu». Por isso, a liturgia fala de Ascensão, Subida. Mas Jesus não faz uma ‘viagem espacial’. Entra noutra dimensão da Vida (não mais sujeita aos limites da materialidade, do espaço e do tempo): a da Plenitude do Ser, a dimensão mesma de Deus. Na linguagem bíblica, o ‘céu’ é uma alusão ao mundo divino; e a ‘nuvem’ recorda a Presença divina, que acompanhou, solícita e vigilante, o povo peregrino pelo deserto, que partiu do Egipto em busca de vida e liberdade. Jesus não atravessa as nuvens. 

Penetra no íntimo mais profundo da vida, das coisas, do divino. Para estar mais próximo de nós — e acompanhar, solícito e vigilante, nossas canseiras e sonhos, nossa peregrinação por mais vida. Ascensão: o Mestre parte. Ele tinha dito que chegaria a sua «hora de passar deste mundo para o Pai». A morte e ressurreição abriram-lhe a passagem para a Plenitude Divina. Mas ele não deixa os seus de forma brusca. Com paciência de Mestre e Amigo, «apareceu aos seus apóstolos durante quarenta dias, falando--lhes das coisas do Reino de Deus» (Actos 1,3). «Quarenta dias» é um número bíblico simbólico: o tempo de preparação para um evento importante. Jesus mesmo tinha passado «quarenta dias» no deserto, preparando-se para a missão que o Pai lhe confiara. 

Agora prepara seus discípulos e discípulas para a missão que lhes confia: «Sereis minhas testemunhas: em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra». A nossa missão fundamental é «testemunhar» que Deus nos ama visceralmente, ao ponto de nos ter dado o seu Amado Filho. Que percorreu os caminhos da nossa terra, fez-se peregrino connosco. Que continua a acompanhar-nos com a nuvem da sua Ternura. E a fazer pairar sobre nós o céu da sua Bênção.

Ascensão: Jesus parte. Para que partam também os apóstolos, para que cresçam em maturidade. Eles são um pequeno grupo de homens e mulheres. Frágeis, sim, mas sobretudo amados. Transformados pelo encontro com o Mestre. E que carregam uma herança preciosa: as sementes do Mundo Novo, escondidas nas palavras do Evangelho. Não podem guardá-las para si; devem espalhá-las pelo mundo: «Até aos confins da terra»!... Apesar de sermos frágeis, o Mestre confia em nós. E garante: não estaremos sozinhos: «Recebereis a força do Espírito Santo,que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas... ».

Ascensão é partida em missão! Ser «testemunha» é ser «enviado». Muitos cristãos ainda não compreenderam isso. Vivem a sua fé como um assunto privado com Deus, como se ela não tocasse a sua relação com os outros. Alguns fazem das práticas religiosas um refúgio, uma maneira de fugir dos problemas da família ou da sociedade. Outros ainda pensam que Deus se encontra apenas no templo, na capela, no tabernáculo, ou quando rezam. Mas não. Jesus envia-nos ao MUNDO; não a ficar a «olhar para o céu». O Mestre diz-nos que o lugar onde os cristãos devem estar é lá onde as mulheres e homens vivem e labutam: «Permanecei na cidade», não fujais dela e dos seus problemas. Lá «sereis revestidos com a Força do Alto». Jesus envia-nos ao mundo, ao teatro da vida, das relações humanas, sociais, familiares. Envia-nos a ser solidários com os feridos e os últimos da sociedade. Envia-nos, com o fermento do Evangelho, a construirmos, com todos os homens, uma «cidade» mais justa e fraterna. Envia-nos a ser Bênção!

Ascensão: Jesus parte e faz-nos partir. Faz-nos amadurecer, ser ‘Igreja em saída’. Para anunciarmos às nossas irmãs e irmãos de humanidade «como é fantástica a esperança do seu chamamento, quão maravilhosa é a herança que ele colocou em nossas mãos, como é grande o seu poder que age em nós, os que nele confiam»! (Efésios 1,18-19: segunda leitura).

(João Pedro Fernandes, CSsR)