Família Igreja Doméstica Testemunha da Esperança

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Nasceu em Belém, ‘casa de pão’. Agora habita em Nazaré, na casa de Maria e de José. Onde se parte o pão de cada dia: o pão que refaz o corpo e o pão que sacia o coração. O pão do trabalho e dos afectos, o pão do serviço e da ternura. Assim é o nosso Deus! Não só se fez um de nós, assumindo carne humana. Ele quis ser ‘de casa’: ser parte duma família, sentir seus sabores e odores, viver seus sonhos e inquietações.

Com Jesus de Nazaré, sacro não é só o templo, mas também a casa; santo não é só o culto, mas também as relações. Sagrada é a família!...

Sagrada é a família que caminha junta. O evangelho de hoje apresenta Jesus adolescente indo, pela primeira vez, com os pais a Jerusalém, para a festa de páscoa. Uma peregrinação feita de perdas e encontros, de entendimentos e incompreensões. Como o peregrinar da vida de qualquer família, de ontem e de hoje. 

Essa romagem a Jerusalém prediz o destino de Jesus — como também o da sua família. Maria e José deverão aprender a perder Jesus como ‘seu’ filho, para encontrá-lo como Filho de Deus («Não sabeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?»). Uma perda que é um ganho: a sua família se alargará a toda a humanidade. Sagrada é a família que se abre a Deus, que se abre aos outros!

A perda do Menino leva os pais a encontrá-lo de maneira nova. Acham-no no templo, «sentado entre os doutores» da Lei, «a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas». E «todos estavam maravilhados pela sua sabedoria e as suas respostas». Um prenúncio daquilo que será Jesus: o Mestre da Nova Lei, autêntica revelação de Deus. Os «doutores» tinham esvaziado a Lei do seu coração de Misericórdia. O velho ensinamento dá lugar ao Novo, encarnado em Jesus: na sua vida, palavras e gestos, fundados no Amor e na Compaixão.

Por agora, José e Maria «não entendem as palavras» de seu filho. Como não entenderão mais tarde algumas das suas opções radicais. Deverão eles também continuar a fazer a sua peregrinação de fé. Recomeçando de Nazaré, para onde regressam com o Menino, que lhes «era submisso», como qualquer criança a seus pais. Aí, também o Menino continuará a sua escola de vida e de fé: «Jesus ia crescendo em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens». 

A casa, a família, a comunidade, são lugares sagrados de revelação divina. Não nos encontramos com Deus apenas no templo e no culto. Jesus deixou o templo e foi para casa, deixou a importante Jerusalém e foi para a simples Nazaré. Em Jesus, Deus se fez companheiro da nossa humanidade, a partir do quotidiano da vida, a partir da periferia e dos pobres. Deus é de casa! Deus mora entre nós: na família, na comunidade, nos pequenos e últimos.

Para compreendermos e interiorizarmos isto, precisamos de um coração acolhedor. Como Maria, que «guardava como tesouro todas estas coisas em seu coração e nelas meditava». Sagrada é a família que aprende a recomeçar sempre a sua peregrinação de vida e de fé, abrindo-se ao novo que lhe chega de Deus. 

                                      

                                                                                                                                                                                                                              Padre João Pedro Fernandes, CSsR