«Olhai: vou realizar uma coisa nova! Já começa a aparecer; não a vedes? Vou abrir um caminho no deserto, fazer brotar rios na terra árida…» (Isaías 43,19-20).
Assim são os profetas: homens e mulheres contemplativos, isto é, profundamente conectados com Deus e com a realidade. Sonhadores, visionários, perscrutam além da escuridão e 'vêm' uma luz nova no horizonte. Melhor que ninguém, leem os sinais dos tempos, e dão-se conta de quando o 'novo' começa a brotar, superando o 'velho'. Assim é o 'Deutero-Isaías' (Is 40-55, profeta da escola de Isaías), o cantor do regresso do exílio, do qual é extraída a primeira leitura deste domingo.
Um texto poético prenhe de esperança! Depois da dura experiência da deportação do seu povo para Babilónia, o profeta 'vê' na vitória do rei Ciro da Pérsia sobre o império babilónico o sinal de «uma coisa nova!»: o fim do exílio e a volta à terra de Judá. O regresso é como um novo Êxodo: um caminho que se abre no deserto, água que brota na aridez, rios que nascem em terra seca…
Toda a história bíblica é, afinal, uma constante aposta de Deus em fazer desabrochar o melhor que há em nossa humanidade. Deus teima continuamente em fazer-nos seus aliados, para que, juntos, façamos deste mundo «uma coisa nova»! A começar pelo chão da nossa vida, tantas vezes árido, estéril, produzindo espinhos.
Toda a caminhada quaresmal é, afinal, um contínuo convite de Deus a fazermos o regresso dos nossos exílios: desses 'lugares' onde nos sentimos separados da nossa Origem, fraturados, sós,feridos, incompletos… — para voltarmos à Terra Prometida, ao Território do Amor.
Nesse regresso a nós mesmos, ao coração da Vida e de Deus, nosso Guia é Jesus, que, ao longo destes domingos, nos vai levando pela mão e fazendo imergir no Mistério da sua e nossa Páscoa: morrer ao passado, ao 'velho', para ressurgir Nova Humanidade! Como faz com a mulher adúltera do evangelho de hoje. Uma história que a todos nos desarma!
Jesus está num dos pórticos do templo de Jerusalém, sentado, a ensinar ao povo a (nova) Lei de Deus. Um grupo de escribas e fariseus —representantes da religião oficial— trazem-lhe uma mulher apanhada em flagrante adultério. A Lei de Deus ("Lei de Moisés" ou Toráh, AT) é clara: a adúltera deve morrer apedrejada. «Tu, Mestre, o que dizes?». Jesus não responde; põe-se a escrever no chão. O silêncio põe em crise a turba dos acusadores; por isso insistem com o Mestre. E ele fala. Uma fala que é um despertador: «Quem de entre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra!». Infelizmente, a humanidade, eu, tu, continuamos a atirar pedras sobre os frágeis telhados dos outros, sendo também nós frágeis, pecadores… Entretanto, Jesus voltou a escrever no chão. Voltou a fazer-se silêncio. O resto da história é conhecido: foram saindo um a um, a começar pelos anciãos (em grego, 'prebyrteroi'), i. é, os que se sentavam no Sinédrio, o Supremo Tribunal Judaico, para julgar os pecadores.
Saem, mas não envergonhados porque Jesus escreve seus pecados no chão, como uma interpretação muito difundida fez pensar. Se o fizesse, o Mestre estaria a fazer o mesmo: a atirar pedras. Saem (em silêncio), porque o silêncio os redimiu. Diante de uma turba furiosa, a única atitude sábia é o silêncio, que faz que cada um entre em si mesmo, habite o território da sua consciência, sem se deixar levar pela onda emotiva da massa anónima. Então, é possível dar-se conta que todos somos frágeis, que ninguém é livre de pecado. Nem mesmo os que se acham melhores que os outros.
E o gesto de Jesus, que escreve —por 2 vezes!— no chão (de pedra)? É um recado aos escribas e fariseus de todos os tempos: ainda estão apegados a uma Lei escrita em pedra — e que tornou os seus corações em pedra! É hora de dar lugar a «uma coisa nova»: à Lei escrita nos corações, como anunciaram os profetas (Jer 31,31-33), à Lei do Amor, a única capaz de sarar as fracturas que todos levamos dentro. É hora da Misericórdia, da Compaixão.
«Mulher, ninguém te condenou?… Também eu não te condeno.» E no coração da mulher ficou gravada uma Lei que a todos faz renascer: «Eu não te condeno!», Deus não te condena! O Perdão cancela o passado e abre asas ao futuro: «Vai e não tornes a pecar». Vai, «uma coisa nova começa a surgir»: tu és capaz de vida nova, de amor autêntico! És capaz de exprimir a melhor versão de ti mesma!
Jesus salvou não só a mulher, mas também os seus acusadores. Salva-nos a nós, pequenos fariseus, quando aceitamos «configurar-nos à sua morte» (Fil 3,10: segunda leitura), fazendo morrer em nós a velha imagem de um Deus justiceiro, castigador, para sermos testemunhas de um Abbá Misericordioso. Salva-nos quando, nos outros e em nós, somos capazes de ver mais que sombra e pecado; quando deixamos que, em nós e nos outros, a Misericórdia e a Compaixão cancelem o passado que desfigura e libertem o futuro que transfigura.
Paulo, ferrenho fariseu, que se deixou salvar, transfigurar, por Jesus (e agora considera como «esterco» aquele passado de irrepreensível observante da Lei e condenador dos pecadores) revela-nos o seu segredo: «Só penso numa coisa: esquecendo o que fica para trás, lanço-me para a frente e continuo a correr para a meta» (Fil 3): habitar no Território do Amor, onde pode desabrochar o melhor da minha humanidade. «Não vedes?…» (Is 43,19).
(João Pedro Fernandes, CSsR)